11/09/2010

~~Conto 1


Confesso. Lembro-me de poucas coisas da minha infância, mas não se precisa lembrar quando se pode criar todo um universo!
Sempre fui quieta (não que ainda seja), mas tinha em mim certa ‘particularidade’ em manter as minhas coisas somente pra mim. Guardava tudo como se fossem pequenos tesouros, desde um pedaço de papel até os meus brinquedos, fossem eles novos ou já surrados pelo frequente uso.
Admirava veemente a arte de manipular palavras e dizia a mim mesma “quando eu for grande quero ser jornalista” acreditando que todo jornalista possuía certo dom de escrever coisas bonitas. Criança tola! Absurdamente feliz.
Lembro incrivelmente das roupas rasgadas pelas farpas das cercas (pois estranhamente onde passei maior parte da minha infância não havia o costume de construírem-se muros), das laranjas e goiabas roubadas das casas dos vizinhos, lembro-me dos passeios para os sítios, das mangas, dos milhos e dos infinitos banhos de rio! Eram magníficos e incansáveis!
Lembro também da estranha sensação de ficar no escuro todas as noites durante meses porque haviam roubado os fios que levava energia até nós! E durante seis (longos e torturosos meses) ficamos no escuro. O lado positivo: Apreciávamos as estrelas.
O costume de ficar sem energia foi tamanho que quando finalmente tivemos acesso à luz elétrica novamente queimou a televisão! Lembro que ela deu um estalido alto e depois de um grito, alto e estridente (meu) a televisão pegou fogo!
Como depois de tantos meses simplesmente ficaríamos sem televisão? E os desenhos animados? O que era de uma criança sem vê desenho?
Meus pais preocupados com a nossa comodidade (assim disseram, mas eu já era crescida o suficiente para acreditar só uns 40 por cento no que eles diziam, eu já sabia que adulto era chato e adulto se preocupava mesmo era em vê o jornal, porque na minha casa seria diferente?) levaram a televisão para o concerto. Não sei ao certo, mas ela passou cerca de oito anos esperando por concerto até que desistimos de uma vez por todas de busca-la. A essa altura tínhamos umas três televisões em casa, ela não faria mais diferença.
Mas voltando a infância... Teve ainda o dia do incêndio!
Estava dormindo bem demais para me lembrar, mas recordo que achei que havia sonhado com um fogo saindo do banheiro e minha mãe chamando meu pai para apagar, só acreditei que tinha sido de verdade no dia seguinte quando acordei e as paredes do banheiro estavam carbonizadas. O que causou o acidente? Uma vela que esquecemos acesa em cima da farmacinha do banheiro, uma coisa que era bem típica na região e que depois passamos a evitar.
Um episódio parecido voltou a se repetir alguns anos depois só que foi mais fogo e consequentemente mais água para apaga-lo. Estávamos em outra cidade (e nessa existiam muros!) tinha um pé de coco no quintal e ele pegou fogo em certa ocasião. Creio que foi o meu pai que fumava perto e que deixou acidentalmente o fogo pegar em algumas folhas secas do quintal. O fogo teve que ser apagado três vezes e toda a vizinhança ajudou!
Lembro-me dos tijolos novos, do cheiro da cera e do chão brilhoso, dos livros antigos que tive a chance de achar e fazer uma ‘biblioteca no meu quintal e ainda do desfile do dia sete de setembro onde tive a honra (sim, me sentia completamente orgulhosa por mim) de ser a rainha da primavera onde eu desfilei com uma blusa branca de mangas bufantes cheias de flores vermelhas, que inclusive era o mesmo tecido que fazia a saia, com uma bota (horrorosa) que fiz minha mãe pegar emprestada e uma cesta de flores nas mãos.
Depois vieram alguns aniversários, veio as constantes mudanças, a venda da casa, a minha cirurgia e a preocupação excessiva da minha mãe em arrumar mais dinheiro para manter a minha internação... Recuperei-me, aprendi a andar de bicicleta, tive minhas primeiras paixonites e me tornei a melhor aluna da classe. (da escola na verdade, e não me envergonho de dizer que já fui “nerd”.) Sabe aquele aluno que sempre é chamado para ler coisas em público, representar a escola, fazer as apresentações dos trabalhos, narrar a peça, escrever um roteiro sobre “uma abelha e uma flor”, direcionar os projetos inclusive as feiras de ciências? Fui eu, por longos anos! E como eu me orgulhava disso!
Tivemos mais algumas mudanças e acabamos voltando para a mesma cidade (a que não havia murros).  Meti-me a sabe tudo, virei dançarina e cantava no coral da igreja.  Sempre atrevida! Gostava mesmo era de receber elogios! Nessa época foi quando deixei as bonecas de lado. Era estranho ter que admitir, mas eu estava crescendo. Depois daí não tem muita coisa interessante, ou sequer tão feliz de lembrar.
Alertei no início que as lembranças não eram tantas. Agora é a hora de contar às coisas que criei que ao contrário das que vivi é bem mais numeroso. Embora prefira manter segredo e permanecer guardando-as somente para mim!




Cheiro do dia: Manteiga derretendo.

3 Comentários:

~Maria Eduarda Anjos disse...

linda sua historinha meu amor..
linda (:
suas lembrancinhas, guarde mesmo com vc, dentro do (L)~~

Amanda Z. disse...

como sempre, seus textos surpreendendo! (:
adoro demais ^^

Beijos.
http://diariodelooks.blogspot.com/

Luara Q. disse...

vc escreve muito bem!

 
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